quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Mentiras que nos contam...

Bete estava feliz com sua vida atletica. Depois de mais de 2 meses frequentando a academia pelo menos 2 vezes na semana, e as vezes até 4 vezes, ja sentia algumas consequencias de sua dedicaçao: mais força nas pernas, mais folego para subir escadas e outras praticas aerobicas particulares. Superou seu trauma inicial de Barbies e comecou a considerar com mais carinho a lipo de abdomen. Porém, nada é perfeito, nao é mesmo?

Bete percebia que o motivo inicial de sua entrada na academia (quem se preocupa com saude? O que importa é a estética!) a infame barriguinha, nao queria abandonar a esse corpo!!!! Ao contrario, sentiu um leve aumento em suas curvas, mas que certamente se devia ao aumento notório de sua massa muscular. As celulites na perna tambem estavam mais visiveis o que nao é esperado depois de tanto suor!!!! Por fim, uma leve porem persistente dor no pé esquerdo a levou a uma sequencia de fatos totalmente inesperados é a constatacao de uma dura realidade.

Alguns meses antes, Bete, para presentear seu marido em seu aniversário, um habil bailarino de salsa, resolveu fazer aulas intensivas dessa dança para surpreende-lo dançando com ele no dia da comemoraçao. Bete tomou mais de 6 horas de aula intensiva e se esforcou muito, aprendendo os passos basicos e dançando bem com sua professora. Um avanço impressionante a ser contado em outro momento. Obviamente, a falta de pratica e os meses de pes protegidinhos e confortaveis em suas lindas botas deixaram marcas profundas no ser de Bete, mais especificamente, bolhas de agua imensas e uma dor enorme que mal a deixava caminhar.... Mas como diz Marisa Monte, o que a gente nao faz por amor???? Resumindo esse capitulo para voltar a historia principal, as aulas nao adiantaram de nada, na hora de dançar com ele ficou tao nervosa que esqueceu os passos, seu marido nunca dançou salsa com ela o estilo de salsa que ela aprendeu era diferente de como seu marido dançava... ou seja fiasco total!

Mas essa demonstracao de amor deixou, como ja disse, marcas profundas nos pés de Bete. Em suas idas a academia, percebe que com o esforço, uma dor incomoda acontecia no pé esquerdo. Foi ao medico da academia, pronta para uma nova etapa em sua pratica de exercicios e meio en passant, comentou sobre a dor no pé. Seu tenis novo e lindo nao era adequado e o "deportologo" a mandou para uma medica podiatra, que daqui em diante sera chamada de pederasta porque soa melhor. Levou os raios-x a sua nova pederasta que pediu mais um e confirmou que havia uma fratura no osso sesamoideo (ela tembem nem sabia que existia mas é um osso em formato de bolinha que fica embaixo da articulacao do dedao do pé). A pederasta lhe prescreveu palmilhas especiais e a mandou a um ortopedista para saber se era necessaria cirurgia. Esse por sua vez baniu seus lindos sapatos altos e a condenou a uma existencia (mais de 2 dias ja é uma existencia) de sapatos feios porém confortáveis. Isso foi o mais dolorido para Bete, algo como Darth Vader cortar a mao de Luke.... NAAAAAAAAAAAAAAAOOOO!!!!! E o medico ainda tenta contornar; sapatos de sola macia, como de enfermeiras!!!!!! Por pouco nao vira o novo coringa do filme ainda nao rodado do Batman.... Mas seu argumento foi convincente: os sapatos feios talvez possam prevenir uma cirurgia.... Bete teve que render-se frente as evidencias.

Logo, Bete encontra finalmente sapatos confortáveis (tipo OH MY GOD confortáveis!) QUE NUNCA HAVIA CALÇADO NA VIDA! Claro, nao sao lindos... nem bonitos.... mas nao sao horrorosos... e se conforma com sua nova condicao... Bem se conformar nao é verdade, mas concede....

E entao, volta a avaliacao com seu deportologo... Faz todos os exames em suas pregas (de pele) e vem o veredito: 24,85% de gordura!!!!! 1/4 de seu corpo é pura banha!!!!!! Nessa hora apenas, maldisse os toblerones e rolos de açucar com canela que andou comendo e se prometeu cortá-los de sua vida....Mas recobrou a razao porque nao se pode culpar os doces por seu aumento de peso e de gordura... Melhor cortar o arroz! O deportologo nao achou tao mal porque para estar na media apenas tem que perder de 4 a 5 quilos! E alcançara isso com 60 minutos de cardio 5 vezes por semana!!! Nada que requeira muito esforço!!!!!

Bete mais uma vez pensou na lipo com mais determinacao... E pensou no quanto seu esforço dos meses anteriores foi desperdiçado... horas de aulas de salsa que a emagreceram mas espatifaram o osso (presumivelmente), horas e horas de academia, suor e tempo investidos em tonificar sua musculatura e no final aumenta de peso e esta literalmente mais gorda (cade o tal ganho de peso por aumento da massa muscular????). Nesse momento, todas as mentiras que lhe contaram na vida e naos quais acreditava de verdade (sobre praticar esportes ser saudável, sobre aumento de massa muscular, sobre fazer atividades cardiovasculares porque diminuem a barriga, que amamamentar nao faz com que os seios caiam, que a Morgana estava certa porque era fiel a seus principios, que aqueles que sao bons no que fazem sao reconhecidos e etc) voltaram amargamente a sua memória..... Porque acreditou nessas mentiras???? Porque???? Como pode ser tao ingenua??? Esses questionamentos foram uma punhalada em seu coraçao com veias obstruídas pelo colesterol - herança de familia.

Academia I - a missao

Com a aproximaçao dos 40 anos, os problemas de saude indicando que è um problema de junta e o fato de viver em Medellín, uma cidade com uma incrível concentração de silicone ocupando os peitos e bundas das mulheres e as plásticas de abdômen incrivelmente bem feitas (já que as debutantes não pedem viagem a Disney ou festas de aniversário e sim cirurgias plásticas – que os pais dão!!!!!)Bete, uma mulher balzaquiana e segura de si e da excelente condição física de seu corpo, chega a pensar e considerar com carinho algumas possibilidades maravilhosas da cirurgia plástica.

Mesmo depois de ter sua mamoplastia elogiada por um medico de 12 anos de idade (aquela que ela nunca fez e que são uma dádiva da natureza e sim, um mediquinho teve o topete de elogiar enquanto a atendia), Bete constatou que a barriga realmente esta fora de proporção. Na avaliação da academia descobriu que tinha 23% de massa corporal acumulada principalmente no abdome e coxas (que significa que a pouca bunda que lhe restava após o sedentarismo desapareceu com as curvas voluptuosas de sua barriguinha cuidadosamente cultivada para a dança do ventre.

Para completar esse quadro, saiu a comprar roupas de ginástica para cobrir, e encobrir, esses pequenos acúmulos de chocolate. Como vocês bem sabem, seu manequim é xs, ou no máximo, s, porque o tamanho médio é muito grande para seu corpinho. Então comprou, a preços bem razoáveis, algumas camisetas tamanho xs. Obviamente não experimentou porque uma mulher conheçe bem seu corpo e sabe o que lhe cabe ou não apenas de olhar!

Ao chegar em casa, foi experimentar o outfit. Nenhum problema que um pouco de vaselina no corpo não possa resolver. Tomou algum tempinho e algumas manobras que o Cirque de Soleil apreciaria para entrar em algumas camisetas... O resultado final não foi o realmente esperado. Digamos que o que Bete viu no espelho lhe deu a real dimensão de onde se localizam os 23% de massa gorda. Claro que seus carinhosos filho e marido colaboram muito para que Bete se sentisse super linda e para que sua auto-estima esteja nas alturas. Um disse que sua bunda parece gelatina. O outro diz que bunda com consistência de gelatina é bom mas que Bete não tem bunda e que sua panca está muito grande... Não são umas gracinhas? E o pior é que nem lhe deram umas sessoes de massagens estéticas de aniversário!!! Criaturas vis e cruéis!!!!! (E-mails a defendendo e recriminando esse tratamento frio serao benvindos....)

Pois bem, na segunda-feira (academia sempre se começa na segunda) as 7 da manha, Bete vai para a academia. Como vocês podem ver, não faltava força de vontade.... Alem do mais já tinha acordado as 6 e estava as 7 na portaria do prédio para que o filho pegasse a van do colégio. Enfim, Bete chega e se da conta que havia chegado em uma nova loja da Mattel, com Barbies tamanho natural, mas feitas do mesmo material. Bete esta certa de que 3 delas passaram pelo mesmo cirurgião plástico porque, lhes juro, era o mesmo formato de corpo com as mesmas proporções.

Bete admitiu para sim mesma, nao sem alguma dor, que invejava os abdomens sem gordura nenhuma, mesmo quando elas sentavam com as costas curvadas... e até brincou com a idéia de uma plástica na barriga...mas enfim.

Bete fez sua série (viram! Até já estou utilizando as gírias) e conseguiu chegar ao fim sem morrer... Quite an accomplishment for her!!!!

Nos dias seguintes fez quase tudo e percebeu que as barbies vao pela manha e as pessoas normais vão a noite. Os Barbie boys não estavam muito em destaque, e para falar a verdade, Bete nem prestou atenção....

Ah, e nao posso deixar de fora as aulas.... Voces bem sabem que isso de aulas de spinning nao sao para Bete!!! Bem, estava Bete muito empolgada para fazer uma aula de algo que se chama Tae box... que imaginava era algo de artes marciais (isso lhe disseram).... Bem, digamos que é uma aula de Jackie Chan ou competiçao de cheer leaders on acid con um professor que saltava o tempo todo e dava chutes para todos os lados e "incentivava" as alunas com os tradicionais e - para Bete - assustadores IUHU!!!!.... Lhe veio uma nostalgia das aulas de aerobica que ela sempre teve dificuldades de acompanhar quando tinha 17 anos.... Mas perto do Tae box as aulas de aeróbica pareciam ioga... Bete teve certeza que aquele professor tomou algo antes da aula!!!! Ou seja, uma aula a menos que ela frequentaria!

Por outro lado, quando saiu das brumas e entrou em contato com o mundo real, o mundo das pessoas normais, fora del Poblado (seu bairro em Medellin), viu que tudo no mundo continuava igual: as mulheres normais tem celulite, estrias, barriguinha, preguiça, TPM, cabelos mal-pintados.... e não são menos felizes por isso.... Como escreveu Tarantino em Pulp Fiction (não sei se foi ele quem escreveu) ou como disse Maria de Medeiros no filme, “ What pleases the touch doesn´t always please the eyes”... E essa frase trouxe conforto a Bete..... ;)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Avião

Para quebrar a monotonia do escritório, nada melhor do que uma viagenzinha a trabalho. Bete sentia-se muito mais competente quando usava o seu terninho e tirava a poeira da pasta de couro cansada de ficar no armário. Na verdade Bete odeia ternos e abomina pastas de couro, acha o visual demodée e nunca acha um sapato que combine, mas uma viagem de negócios pedia um pouco de tolerância. E de um terno. Para aliviar o desgosto Bete vestia com o terno a ilusão de ser uma versão feminina do Clark Kent. Sem todo aquele gel no cabelo, é claro. E sem aquela fantasia nas cores da bandeira norte americana. Mesmo na sua melhor forma ela não encararia um colan azul turquesa.

Usando o seu olhar “mulher-profissional-bem-sucedida-muito-ocupada-com-seu-i-phone” Bete ruma para o check in automático. Ela não é a melhor amiga da tecnologia mas, por outro lado: o que poderia sair errado? Bete escolhe uma das 10 máquinas de check in. Clica sobre o idioma português e espera. Nada. Talvez se escolhesse inglês tivesse mais sorte. Nada outra vez. Só que em inglês. Bete começa a lançar olhares de soslaio para os outros passageiros que, sem problema algum, retiram seus cartões de embarque das máquinas vizinhas.

Bete começa a falar sozinha. Sempre faz isso quando fica insegura. E quando está tentando se concentrar em uma fórmula muito difícil. Faz isso também quando sente que deve uma explicação a todos os passageiros bem sucedidos das máquinas vizinhas.

Ela se concentra numa solução. Talvez ir ao guichê diretamente? Não, um reconhecimento aberto do seu fracasso acabaria com o glamour de sua viagem. Respirou fundo e decidiu tentar a máquina ao lado. Tentou o idioma espanhol desta vez. E por algum milagre conferido apenas às “mulheres-profissionais-bem-sucedidas-muito-ocupadas-com-seu-i-phone” Bete não encontrou problemas para retirar o seu cartão de embarque. Ha! 1 x 1. Bete registrou o fato e fez uma anotação mental – próximas férias: Espanha! Lá será bem sucedida em TODAS as máquinas e não terá que passar por este sofrimento.

Entrou no avião e foi procurar o seu assento. Identificou logo o seu companheiro de viagem como sendo um destes homens “este aqui é meu” também conhecidos como “meu braço daqui não sai, meu braço daqui ninguém tira”. O senhor tinha sido um dos primeiros a levantar-se quando anunciaram o embarque do avião. Certamente queria garantir o território. E agora o seu vasto cotovelo expandia-se por todo o apoio do braço, sem deixar espaço para um pequeno movimento em falso de Bete que já começava a reconsiderar o seu apreço pelas viagens a trabalho.

Mas aquele senhor versão extended também poderia estar indo a seu lado na sua viagem à Espanha o que seria muito pior. A viagem seria muito mais longa. E Bete já estava absolutamente comprometida com suas férias. Respirou fundo e resolveu relaxar. Não deixaria nada estragar seus planos!

Ouviu o comandante avisar um atraso na decolagem. Algo errado com uma das peças do avião. Humm, a sua tortura duraria um pouco mais do que o previsto. E o senhor versão extended começou a transpirar a olhos vistos. Nervoso? Talvez o senhor tivesse medo de voar? Mas ele parecia tão certo de seus movimentos: ser um dos primeiros a embarcar, assegurar o seu espaço, garantir um exemplar do jornal. Não, o senhor era certamente um profissional dos ares. Quem sabe o anúncio do comandante fosse responsável pelo novo estado de espírito do seu companheiro de viagem.

Mas o que poderia ser tão ruim? Se descobriram o defeito em solo dariam um jeito no problema e a viagem seguiria. Ou talvez não. Um avião pareceu de repente um universo infinito de possíveis peças quebradas, defeitos, acidentes. E então Bete previu os seus últimos momentos de vida. E constatou que a sua derradeira visão seria aquele senhor transpirante agonizando. Um fim trágico, sem dúvida.

Começou a considerar uma saída estratégica. Abandonar o avião e embarcar em outro vôo. Mas como fazer isso sem gerar pânico? O pânico despertaria os outros passageiros para a gravidade da situação. Além da confusão, isto geraria um problema de competição por um lugar em outro avião. E talvez não conseguisse embarcar.

Mas que egoísmo Bete! E a vida de todas as outras pessoas? Sair daquele avião trazendo o maior número de pessoas seria a sua meta, a sua boa ação do dia. Já via as manchetes nos jornais: “Bete Wansin salva passageiros e tripulação de fim trágico”. Tinha que lembrar de aparecer na foto com o seu lado esquerdo – o mais fotogênico.

Desafivelou o cinto de segurança e começou a levantar-se. A aeromoça aproximou-se. Estavam decolando. - Por favor senhora permaneça sentada e ponha o cinto de segurança.

O choque impediu que Bete reagisse. Queria gritar. Salvar as crianças e os idosos daquele fim trágico. Mas tudo que pode fazer foi sentar-se e afivelar o cinto de segurança. Isso sempre acontecia quando entrava em pânico: obedecia a qualquer ordem clara, sem discussão.

Bete era a versão moderna de Cassandra: conhecia o futuro mas, o que poderia fazer? Quem acreditaria nas suas predições? Talvez o senhor transpirante agonizando e agora expandindo o jornal para além das fronteiras de seu próprio assento.

...

Como é que alguém pode ler numa situação destas? Ele certamente queria provocá-la. Aquele senhor era mesmo um abusado e já havia passado dos limites! E agora que não tinha mais esperanças de fazer a tão sonhada e planejada viagem à Espanha, já não precisava tentar relaxar e se adaptar às situações adversas. Ela não tinha mais o que perder, poderia dar vazão à sua revolta e apelar para um “show-do-escuta-aqui” bem dado. Virou-se com fúria e deparou com a imagem da aeromoça.

- Por favor ponha o cinto de segurança, estamos aterrissando.

Bete obedeceu.

Aterrissando. Viveria para contar o caso. Não só ela, também o senhor a seu lado. Salvo pelo gongo.

No destino olhou para a cidade com a alegria de alguém que viu a morte de frente. Bete renascera. Se o incômodo provocado por seu companheiro de viagem não tivesse atrapalhado, certamente teria visto em sua mente toda a vida passar. Como era, ela esqueceu muitos eventos importantes, mas decidiu não se preocupar com isso: estava atrasada e precisava de uma condução:

- Taxi!